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"Trajetória de um Politiqueiro" - Conto de cordel


por João Batista Ciríaco

Pra quem ta vendo eu agora,
bonito e bem arrumado,
de gravata, colarinho e paletó importado
nem imagina o que eu era:
eu era pobre de Jó
No almoço era uma aventura
Quando tinha uma mistura
Era osso de mocotó

Mas eu tinha uma coisa boa
Que enchia os olhos dos barão
Era uma família grande
Mas se a família era grande,
Mais maior era a união

Apareceu lá em nós
Um cabra conversador
Prefeito da capitar
Queria se candidatar
Futuro governador

Me ofereceu dez milhão
P’reu convencer minha gente
Mas só cumpria missão
Depois que houvesse eleição
Ô cabrinha inteligente

Mas eu não aceitei na hora
Também sou inteligente
E lhe fiz uma proposta, proposta muito decente:
Quinze mil votos pra agora
Consigo muito mais pra frente
Mas quinze mil, meu rapaz,
São os votos de minha gente
Nessa proposta meu caro
Você não bota defeito
Lhe ajudo a ser governador
Você me ajuda a ser prefeito

Ele se agradou na hora
Achou a proposta boa
Mas me avisou sem demora
Não espalhe pras pessoa
Porque só cabe nós dois
No diabo dessa canoa


Aí eu lembrei a ele:
Os votos da minha gente eu posso garantir
E o voto dos outro povo
Como é que eu vou conseguir?

Ele respondeu sorrindo:
É fácil manipular
Dê uma ferinha aqui
Um enxovalzinho acolá
Uns tijolinhos pra ali
Outras telhinhas pra cá
Mas não abra muito a mão
Taí seus cinco milhão
Só pra você começar

Em menos de um mês
Gastei toda a dinheirama
Com o povo foi cinco mil
O resto: colchão da cama!

Faltando uns quinze dias
Pro dia da votação,
Mandei buscar mais dinheiro,
Os outros cinco milhão.
Aí gastei cinco mil
comprando os voto do povo
E o resto do dinheiro:
colchão da cama de novo

E depois da votação
fomos pra apuração
dos voto dos eleitor
eu ganhei pra prefeito
e meu amigo do peito
ganhou pra governador

Com quatro anos depois
Meu amigo voltou
Ele foi pro senado
E eu pra governador

Hoje tou n’outro partido
Usando de muita manha
Pulando que nem macaco
Mas sempre do lado que ganha


E aquele meu grande amigo
Que eu dizia do peito
Hoje é meu oponente
Adversário perfeito
Mas é só de aparência
Pra impressionar o povo
E pra nossa conveniência
Pra votar algum projeto
Se mensalão tiver certo
Nós vota a se unir de novo

Fomos a favor das vendas
Das empresas estatais
Por quatro ou cinco milhão
Eu votaria dez vezes mais

Depois veio outras matérias
Pra entrar em votação
Dessa vez é pra votar
A favor da reeileção
Com o dinheiro que eu ganhei,
Só metade eu gastei
Com uma estação de rádio
E outra de televisão

Eu mandei investigar
Essas votação secreta
Que era pra descobrir
Outras pessoas esperta
Mas aí foi descoberta
A minha boa ação
Tentaram me derrubar
Pediram minha cassação
Mas eu mostrei ser sagaz
Pulei pra frente e pra trás
E voltei na outra eleição

Tou lá no meio dos bom
Coitadim são tão pouquim
Que não dá nem pra notar
Não cantam no mesmo tom
Nem chega a atrapalhar
E por eles ser tão bom
Quando outra eleição
O povo deixa de votar

Essa vida de político
É como a de marajá
Já tou ajeitando meu filho
Pra ficar no meu lugar
Eu quero ser presidente
Preciso do meu filho lá
Mas tem que ser astucioso
Pra saber articular

Eu já disse pra ele
Palavras de dicionário
Ele pode até falar
Mas quando assumir mandato,
Nem pense em executar

Meu filho perguntou:
Como são essas palavras? Me diga por caridade
As palavras são pouquinhas
Mas tem muita validade
É compromisso, é ética
é a tal fidelidade
e se esqueça por completo
da famosa honestidade

Faça o que eu to dizendo
que você nunca cai
durma e acorde tranqüilo
que preso você não vai
meu filho disse:
Vou pensar se essa profissão me atrai
Mas pelo que eu ensinei a ele
Sei que o pensamento dele
É tomar o lugar do pai
É mole ou quer mais??

João Batista Ciríaco
João Batista Ciríaco tem 50 anos, morador do Bairro das Rocas em Natal, trabalha como Técnico em Telecomunicações e é apaixonado por literatura de Cordel. Este é um dos primeiros cordéis que o autor se aventurou a escrever, incentivado por amigos!
Contato: 3202-5188 ou 9925-8650


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